Sentido

Ando por caminhos longos e estreitos. 
Depois de alguns passos, 
busco dar folga aos pés,
que tanto riscaram o chão
por onde passei.
Por vezes, é certo, paro em alguma esquina,
numa padaria, 
num boteco, 
num puteiro.
Ensaio uns passos de tango,
de salsa,
um frevo, 
um carnaval…
– sem contrapor o certo e o errado!
Saio trotando por ruas que eu nem conheço. 
Pelos becos de uma cidade qualquer.
Talvez seja a Rua Chile, 
ou na Rue d’Avron,
uma rumba na Calle Obispo. 
Em passos largos, chego a uma galeria
onde trago uma bebida
e trago em mim a vantagem de, 
entre um trago e outro, 
esquecer o que importa, 
o que fazia, 
                onde eu ia…
Pouco importa. Talvez não tenha sido bom.
      – Quem sabe uma lembrança amarga?
Se retorno, a passos curtos, 
vou desenhando nas calçadas
a chatice de ser um ser 
e ter que ter um Norte, 
a direção de algo que não quero,
que não vejo, 
que não desejo, 
ou até mesmo o que nem sei!
Contemplando tudo isso,

tendenciosamente, procuro me esquecer 

que sou um erro sistemático da vida. 
E que por essa vida, ando querendo marcar o chão
rumo à descoberta do que há em mim.
Há uma jazida que brota, 
que transcende um querer que me escapa
e rasga o meu peito
e paira sobre os rios fartos 
e caudalosos do meu mais puro querer, 
nas correntezas dos meus ilustres desejos…
       – Quem sabe a beleza do meu sonho lá tenha fixado residência?
Devo ir? Não sei!
Debuto novos passos
em busca de algo que me valha, 
da verdadeira recompensa.
Ah! Esses meus passos!
Certos ou incertos, 
no afã de serem passos firmes, 
é caminhando que descubro o meu rumo.
E o meu Norte só aponta a uma direção:
Ser o dono de mim!

 

 Allan Emmanuel Ribeiro – Salvador-BA, 15 de maio de 2014

 

Todo Risco – Damário Dacruz

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