A propósito das lembranças!
Não há no mundo um ser capaz,
por mais que tente, de imaginar
uma palma do que contemplei
ou o encanto do rio que naveguei
nem a seca que deixei pra lá.
Nem o asfalto que hoje piso
precisaria uma só lembrança
não veria o céu que antes vi
não correria os vales que corri
nos meus tempos de criança.
Nem o oceano que de cá eu admiro
e que tenho como o lar de agora
sonharia um dia, por um momento,
ter barrancos, ter nascente, ser barrento
como o rio em que me banhei outrora.
Nem os mais loucos e ternos amantes
sonharão os sonhos que eu lá sonhei,
não sentirão o que na pele eu senti
não viverão as vidas que lá vivi
não amarão os amores que lá amei.
Nem reis majestosos em ricos trajes
com mil barris de denários de prata
seriam capazes de comprar
e não poderiam idealizar
o que minha memória retrata.
Rio-me de tantas recordações
dos meus engalanados carnavais
e dos meus muitos vãos amores
das minhas mais amargas dores
que um dia deixei pra trás.
E quando fecho os meus olhos,
as lágrimas apertam o coração
e descem, tal qual o rio em seu leito,
deságuam no oceano do meu peito
e as lembranças são uma oração.
E hoje, lapidado pela poesia do tempo,
metade de mim ri da minha história
outra metade é poema, é rima, é verso
pelo milagre do encantado universo
guardado no coração da minha memória.
Allan Emmanuel Ribeiro
(Foto: Rosa Tunes – extraída da página do Facebook do amigo Welton Chagas).

